A primeira vista, o Ford Tempo parece ser uma simples berlina dos anos 80, mas esconde uma história muito mais complexa, feita de promessas não cumpridas e desilusões. Estacionado à frente de uma casa, este carro maltratado suscita a curiosidade: como é que acabou assim? Teria sido o primeiro veículo de um adolescente em busca de liberdade ou o alvo de um proprietário frustrado?

Carro azul maltratado Ford Tempo de 1989 estacionado na calçada

Um Modelo que Envelheceu Mal

O Ford Tempo apareceu em 1984, um modelo que se vendeu como o messias dos pequenos carros americanos. Infelizmente, nunca conseguiu cumprir as suas promessas. Era um pouco como um cantor com voz que acaba a cantar em playback: parecia bem no papel, mas a realidade era bem diferente. Baseado numa plataforma estendida da Ford Escort, o Tempo tinha uma dinâmica de condução que deixava muito a desejar. A sua suspensão, embora promissora no papel com as pernas de força MacPherson na traseira, revelava-se desajeitada assim que a estrada se tornava um pouco exigente.

O Motor: Um Desastre Mecânico

Debaixo do capô, o Tempo vibra ao ritmo de um motor a quatro cilindros de 2,3 litros. Com os seus 84 cavalos, este bloco não ia ganhar concursos de beleza nem de performance. Este motor, proveniente do seis cilindros da Falcon, era um compromisso para a Ford, que tentava otimizar a sua produção. O resultado era um ruído estridente e uma sensação de fraqueza que não deixava de irritar os condutores. Na época, o carro estava equipado com uma caixa automática ATX de três velocidades, que oferecia mudanças de marcha tão suaves como um elefante numa loja de porcelana.

Uma Viagem Inesquecível

Para mim, a minha única experiência com o Tempo remonta a uma viagem em 1984 através do Novo México. Alugado para a ocasião, este modelo novinho em folha revelou-se um parceiro de estrada caprichoso. Eu estava em busca de aventuras fora dos caminhos batidos, mas o Tempo frequentemente revelou-se um fardo. Barulhento, pouco reativo e muitas vezes propenso a tropeçar em estradas que até os 4×4 hesitariam em percorrer, este carro era tudo menos um companheiro ideal. Lembro-me de uma vez em que a suspensão capitulou completamente num caminho pedregoso, deixando-me a perguntar como iria explicar à empresa de aluguer porque tinha corrido tal risco.

Um Design Contestável

Do lado de fora, o Tempo exibia linhas aerodinâmicas bastante sedutoras para a época, mas uma vez dentro, o charme dissipava-se. O habitáculo estava longe de ser sedutor, parecendo mais o interior de um carro de aluguer do que de um modelo destinado a seduzir os jovens condutores. A maioria dos elementos parecia ter sido colocada sem cuidado, e a experiência de condução era tão dececionante quanto a sua aparência.

Evoluções Tímidas

Em 1988, o Tempo beneficiou de um refresco que tentava alinhá-lo visualmente com o seu irmão mais velho, o Taurus. No entanto, esta evolução não foi suficiente para fazer esquecer as lacunas fundamentais do modelo. A realidade era que a Ford não tinha os recursos necessários para oferecer uma verdadeira atualização. Assim, o Tempo permaneceu uma memória amarga para muitos dos seus condutores, alguns permitindo-se até dar-lhe golpes para libertar a sua frustração.

Um Legado Estranho

Surpreendentemente, o Tempo até conheceu uma certa popularidade na China nos anos 90, com um pedido massivo de 3 100 unidades. Isso testemunha uma época em que até os modelos menos performantes podiam conhecer um sucesso inesperado graças às dinâmicas comerciais. Mas que ironia pensar que estes carros poderiam também desencadear memórias dolorosas nos seus novos proprietários.

Conclusão: Um Carro com Memórias Mistas

Hoje, o Ford Tempo tornou-se uma curiosidade nostálgica. Vê-se às vezes a vaguear em garagens, vestígio de uma época passada em que a qualidade era frequentemente sacrificada no altar do lucro. Os poucos modelos restantes são quase considerados relíquias, lembrando uma época em que os construtores americanos lutavam para se adaptar a um mercado em plena evolução. Se cruzar um Tempo, pense em prestar-lhe homenagem: ele sobreviveu a muitas provações.

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