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F1 2026: Mekies alerta para o risco de o ADUO ser contornado

A nova regulamentação da Fórmula 1 para 2026 foi pensada para aproximar os motores, mas também abre uma porta delicada: a possibilidade de alguns construtores não mostrarem todo o seu verdadeiro nível para influenciar o ADUO. Laurent Mekies reconhece que essa tentação existe, ainda que recuse transformar a hipótese numa regra geral. Numa disciplina em que cada décimo vale ouro, o mecanismo criado para equilibrar a grelha pode acabar por ganhar uma dimensão política difícil de ignorar.

F1 2026: Mekies alerta para o risco de o ADUO ser contornado

O tema está longe de ser secundário. Com o novo quadro técnico de 2026, as equipas discutem não só potência e hibridação, mas também a forma como a FIA vai medir, comparar e corrigir diferenças entre unidades motrizes. É nesse ponto que entra o ADUO, um conceito simples na teoria, mas carregado de consequências no paddock.

Ao longo do fim de semana, a expressão F1 2026 foi ganhando peso em conversas de bastidores. E a inquietação é muito concreta: se um fabricante tiver interesse em disfarçar o seu verdadeiro nível, de que forma pode a FIA impedir que o sistema seja contornado?

ADUO foi criado para evitar desequilíbrios entre motores

ADUO significa «Additional Design and Upgrade Opportunities». O princípio é direto: dar margem de evolução extra aos fabricantes que estejam mais atrasados, para acelerar a convergência entre os diferentes motores.

Na prática, a FIA avalia em intervalos regulares a performance da parte térmica. Se um motor estiver entre 2 e 4% abaixo do motor de referência, ganha uma oportunidade adicional de evolução. Se a diferença ultrapassar os 4%, podem ser atribuídas duas evoluções.

A lógica do regulamento é clara. A Fórmula 1 quer evitar que uma nova geração técnica cristalize numa hierarquia fixa logo no arranque. Com a entrada de novos nomes, como Red Bull Ford e Audi, a vigilância sobre este processo torna-se ainda mais sensível.

Porque é que alguns podem ser tentados a esconder rendimento

Qualquer sistema de compensação cria uma zona cinzenta. Tal como acontece no WEC com a BoP, surge sempre a tentação de perceber se não será útil conter um pouco o rendimento durante algum tempo para influenciar a leitura da concorrência e do regulador.

O raciocínio é simples. Se um fabricante parecer demasiado forte, pode perder uma vantagem. Se parecer demasiado atrás, pode beneficiar de mais margem de desenvolvimento. Num campeonato em que a informação vale tanto como a velocidade, essa gestão da perceção não é uma ideia descabida.

Mesmo assim, medir com rigor a potência de uma unidade térmica nunca é uma tarefa linear, sobretudo quando as arquiteturas são diferentes. É precisamente aí que o sistema pode ficar exposto a contestação, caso a leitura oficial não coincida com o que se passa realmente em pista e no banco de ensaio.

Mekies admite a tentação, mas rejeita a ideia de uma prática generalizada

Questionado sobre essa hipótese, Laurent Mekies não procurou fugir ao assunto. Pelo contrário, admitiu que um fabricante em vantagem pode sentir-se tentado a jogar com os limites do sistema.

«Não penso assim», referiu, citado pelo The Race. «Quer dizer, a Mercedes tem atualmente uma vantagem tão grande que poderia ser tentada, o que é compreensível, mas os outros não têm alternativa.»

O responsável da Red Bull não está a acusar ninguém de esconder potência de forma sistemática. O que sublinha é outra coisa: em F1, uma vantagem técnica tão clara pode tornar plausível a ideia de suavizar o desempenho para não ativar cedo demais o mecanismo corretivo. Para o resto da grelha, a realidade é bem mais dura: primeiro é preciso competir, depois vem a estratégia.

Mercedes aparece no centro do debate, mas a questão é mais ampla

A Mercedes surge neste tema porque, na leitura de Mekies, dispõe hoje de uma margem suficientemente forte para tornar essa tentação credível. E é exatamente esse o ponto sensível: um motor em posição dominante pode ser suspeito de não expor toda a sua margem apenas para evitar que o ADUO entre em ação demasiado depressa.

Contudo, limitar a discussão a uma só equipa seria simplificar demasiado o problema. O verdadeiro desafio está na forma como a FIA vai medir a performance. Quando a avaliação depende de uma fotografia da unidade térmica, cada detalhe conta: protocolo, comparação, arquitetura e janela de observação.

Em 2026, a regulamentação não vai testar apenas os motores. Vai também pôr à prova a capacidade do sistema de ser claro, credível e resistente a leituras estratégicas que procurem explorar qualquer brecha.

Na Red Bull Ford, o cenário menos favorável já ficou para trás

Mekies deixou ainda outra mensagem importante para a sua equipa: o motor Red Bull Ford superou as expectativas. O défice continua a existir, mas é inferior ao que a formação temia no arranque do projeto.

O responsável da Red Bull Racing fala numa diferença de «três décimos», sendo a maior parte dessa desvantagem atribuída à componente térmica. À escala da Fórmula 1, continua a ser muito, mas já não corresponde ao cenário mais preocupante que pairava sobre o primeiro motor desta parceria.

«O motor superou claramente as expectativas», admitiu. E essa frase pesa mais do que parece. Um projeto de unidade motriz que começa mal pode arrastar-se durante anos. Neste caso, Mekies considera que o fantasma desse arranque falhado desapareceu, o que muda por completo a leitura interna da equipa.

O foco continua a ser o carro, não apenas o motor

Apesar disso, não há espaço para triunfalismo. Mekies lembra que a equipa ainda tem vários problemas para resolver e que a evolução terá de ser encontrada onde realmente se perdem décimos.

«Temos de ganhar esses décimos», resumiu, acrescentando que as correções virão, embora não já em Miami. A mensagem é simples e vale tanto para 2026 como para o presente: uma base motriz sólida não resolve o resto. O chassi, a gestão dos pneus e o equilíbrio global continuam a decidir o resultado.

Em suma, a nova geração de motores vai redistribuir forças, mas não vai apagar as diferenças de um dia para o outro. E se o ADUO nasceu para impedir que alguém fique demasiado forte cedo de mais, também pode tornar-se um dos temas mais tensos da transição técnica que a Fórmula 1 vai enfrentar.

O essencial sobre o ADUO e o risco de o sistema ser contornado

O ADUO foi criado para ajudar os fabricantes que estejam em desvantagem a aproximarem-se da concorrência, mas tudo dependerá da fiabilidade da medição da FIA. Quanto mais o regulamento tenta nivelar o campo, maior é a exigência para perceber com precisão quem está realmente na frente.

  • O ADUO procura acelerar a convergência entre motores em F1 2026.
  • A FIA mede a potência térmica para atribuir evoluções adicionais.
  • Entre 2 e 4% de atraso, o fabricante recebe uma oportunidade de desenvolvimento.
  • Acima de 4%, podem ser atribuídas duas evoluções.
  • Laurent Mekies admite que um líder pode ser tentado a disfarçar a sua performance.
  • No caso da Red Bull Ford, o motor acabou por superar as expectativas iniciais.