Desporto automóvel

MotoGP: Pilotos divididos dificultam criação de associação unida

O MotoGP atravessa um momento crucial, marcado pela chegada de novos proprietários e por preocupações de segurança cada vez mais prementes. A ideia de uma associação de pilotos, semelhante à existente na F1, volta a ganhar força. No entanto, apesar da necessidade de falar a uma só voz, os principais pilotos do pelotão parecem demasiado divididos para concretizar este projeto.

A segurança, a evolução do regulamento ou a integração de novos circuitos mais arriscados são temas cruciais que deveriam impulsionar os pilotos de MotoGP a unirem-se. Contudo, a comissão de segurança, que deveria ser o fórum de expressão privilegiado, vê cada vez menos participantes. Este encontro semanal, que permite abordar diretamente as problemáticas ligadas às pistas ou à modalidade, é cada vez mais evitado pelos campeões, sobrecarregados e, por vezes, desiludidos.

Comissão de Segurança: Uma ferramenta subutilizada

Nos últimos Grandes Prémios, a sala da comissão de segurança tem sido frequentemente ocupada por um punhado de rostos familiares. Enea Bastianini, por exemplo, não esconde a sua deceção: “Isto desilude-me um pouco. Este ano, nunca fui à comissão de segurança, porque sinceramente não vi grandes diferenças”, confessa o piloto da Tech3. O diagnóstico é claro: apesar das discussões regulares sobre segurança, as mudanças concretas demoram a materializar-se, minando a motivação das tropas.

Luca Marini, um dos poucos a ainda comparecer, reconhece os esforços da Dorna para uma comunicação transparente. “A Dorna fez um trabalho fantástico: a segurança em geral, os circuitos, melhoraram muito”, admite. Mas o facto é que “já não há muitos assuntos para discutir porque nas pistas que temos há muitos anos, eles fizeram grandes progressos. Talvez num novo circuito, haja muitas coisas a dizer.” O problema, portanto, já não é tanto a falta de vontade dos organizadores, mas sim a ausência de temas urgentes e unificadores.

MotoGP: Pilotos divididos dificultam criação de associação unida

Luca Marini, um dos pilotos mais assíduos nas reuniões de segurança.

O tempo, esse luxo raro durante um fim de semana de Grande Prémio, é também um grande obstáculo. “É difícil com o stress porque atualmente o MotoGP é muito exigente mentalmente e é preciso dar conta disso”, explica Marini. Perante a pressão das qualificações, das corridas e das obrigações mediáticas, alguns pilotos preferem, por pragmatismo, saltar estas reuniões, consideradas uma carga adicional. Pedro Acosta, o jovem prodígio, assume plenamente esta estratégia: “Tenho problemas suficientes na garagem para arranjar tempo para ir. Quando há um assunto que precisa de ser discutido, eu vou, também para ver o que os outros dizem. Mas não havia nada de muito interessante nas últimas corridas, por isso não fui.”

Uma associação fantasiada, uma realidade complexa

A ideia de uma associação de pilotos, moldada no modelo da GPDA (Grand Prix Drivers’ Association) na Fórmula 1, regressa frequentemente. Luca Marini vê nela uma solução: “Talvez precisemos de nos unir com um representante que possa discutir mais com a organização.” Lamenta, no entanto, as tentativas passadas, que falharam: “Tentámos várias vezes fazê-lo e não é possível atualmente, por isso veremos no futuro. Mas não é um problema de número, é apenas que precisamos de estar mais unidos.”

Enea Bastianini também defende uma estrutura dedicada aos pilotos, distinta das existentes para as equipas, como a IRTA. “Há uma
para as equipas, a IRTA, mas nada para os pilotos”, constata. Espera ver tal iniciativa concretizar-se, considerando que ela “mudaria completamente as coisas para nós”, tanto para a segurança como para outras questões da modalidade.

No entanto, a implementação de tal estrutura enfrenta um obstáculo considerável: a falta de consenso entre os próprios pilotos. Fabio Quartararo, campeão do mundo em 2021, sublinha esta dificuldade: “Mesmo entre pilotos, nem sempre estamos de acordo. Por exemplo, quando chove na Índia, alguns dizem que não se deve correr, depois dois pilotos decidem correr, e no final todos seguem.” Esta falta de unidade nas decisões, mesmo sobre temas vitais, torna a construção de uma posição comum extremamente árdua.

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Fabio Quartararo, campeão do mundo em 2021, aponta a falta de unidade.

Luca Marini reforça esta falta de coesão: “O problema é que não podemos estar todos unidos como pilotos. É realmente difícil avançar na mesma direção com as mesmas ideias, porque cada um tem as suas.” Se o respeito mútuo reina na pista, um “espírito mais aberto” e uma melhor comunicação inter-pilotos parecem necessários para que uma associação veja a luz do dia e influencie verdadeiramente o futuro do MotoGP.

MotoGP na hora das escolhas: que futuro para os pilotos?

  • Falta de temas urgentes: A comissão de segurança tem dificuldade em gerar interesse devido à falta de problemáticas importantes nos circuitos atuais.
  • Pressão do calendário: Os fins de semana de Grande Prémio são tão intensos que os pilotos priorizam o seu desempenho em detrimento da participação nas reuniões.
  • Desacordo sobre prioridades: Os pilotos têm opiniões divergentes sobre os temas importantes, tornando difícil a formação de uma frente unida.
  • Ausência de uma estrutura dedicada: Ao contrário da F1, o MotoGP não dispõe de uma associação forte que represente os interesses dos pilotos.
  • Vontade de agir: Apesar das dificuldades, pilotos como Bastianini e Marini continuam a defender uma melhor representação.
  • Impacto da Liberty Media: A chegada dos novos proprietários poderá alterar o cenário e criar novas oportunidades de diálogo.

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