Num mundo automóvel em plena mutação, o gigante Stellantis enfrenta um verdadeiro quebra-cabeças. Com 14 marcas no seu portfólio, a necessidade de uma estratégia clara impõe-se, entre sobreposições de gamas e desafios geopolíticos. Como é que o grupo vai navegar nesta mar agitada?

Um portfólio de marcas demasiado pesado para suportar

Na criação da Stellantis em 2021, o objetivo era tornar-se um ator maior graças à amplitude do seu portfólio. Nenhum outro construtor, na altura, podia gabar-se de um tal leque de marcas. O lado francês trouxe Peugeot, Citroën, Opel, Vauxhall e DS, enquanto o conjunto italo-americano adicionou à festa Jeep, Fiat, Chrysler, Alfa Romeo, Dodge, Lancia, Ram, Maserati e Abarth. No total, estas 14 marcas deveriam constituir uma arma temível face a gigantes como Volkswagen e Toyota.

No entanto, rapidamente se tornou claro que «mais» não significa necessariamente «melhor». Muitas destas marcas já precisavam de novos produtos no momento da fusão, e cinco anos depois, a situação pouco evoluiu. A questão coloca-se então: o que fazer?

Os produtos contam mais do que a herança

Sob a direção de Carlos Tavares, a Stellantis já estava obrigada a considerar escolhas radicais para algumas marcas. Com a nova equipa liderada por Antonio Filosa, estas decisões parecem inevitáveis. O grupo deve concentrar recursos limitados e lucros em queda nos segmentos onde é mais forte: pick-ups e veículos utilitários leves para as Américas, grandes SUV para a América do Norte, carros compactos e SUV para a Europa e América do Sul, bem como veículos profissionais. Em 2024, estas categorias representavam 69% das vendas globais do grupo.

Paralelamente, a distinção entre algumas marcas revelou-se insuficiente. Na Europa, por exemplo, o posicionamento entre Citroën e Fiat nem sempre é claro, tal como entre Opel/Vauxhall e Peugeot. E qual deveria ser a diferença real entre DS e a futura gama Lancia?

O «pólo premium» também não funcionou como previsto. Maserati, posicionada como marca de luxo, e Alfa Romeo, considerada premium, não conseguiram impor-se nos seus segmentos respetivos. Entretanto, o grupo aposta numa relançamento da Lancia como marca premium, levantando questões sobre a pertinência de sustentar três marcas com ambições semelhantes.

Os desafios das marcas históricas

Chrysler está em dificuldade há anos. Dodge, por seu lado, sofre de uma gama envelhecida e de um modelo pouco convincente como o Hornet, sem falar do regresso do Charger num segmento em declínio. Jeep e Ram, durante muito tempo motores de crescimento, atravessam um período delicado devido à alta dos preços, e para a Ram, à ausência no segmento de pick-ups intermédias nos Estados Unidos.

Os consumidores compram carros, não memórias empoeiradas. É por isso que a Stellantis deve considerar o futuro de marcas como Lancia, Chrysler, DS, Maserati, Abarth e Dodge, ponderando integrações, vendas, ou até uma saída do mercado. As outras marcas também precisam de um novo ímpeto: Fiat não pode continuar a sobrepor-se à Citroën e deve capitalizar a sua posição forte no Brasil; Peugeot e Opel devem melhorar a sua diferenciação; Jeep deve acelerar o seu plano de produtos; Ram deve alargar a sua oferta de pick-ups; por fim, Alfa Romeo deve garantir continuidade e coerência no desenvolvimento da sua gama.

O impacto das escolhas estratégicas no futuro

Com estes desafios à frente, a direção da Stellantis terá de demonstrar ousadia e inovação. A questão não é apenas como racionalizar as marcas existentes, mas também como redefinir a sua identidade para responder às expectativas dos consumidores modernos. As novas tecnologias, nomeadamente a eletrificação e a conectividade, devem estar no centro das reflexões. Cada marca deve possuir uma personalidade única que ressoe com a sua clientela-alvo.

Enquanto alguns analistas acreditam que uma fusão de algumas marcas poderia ser benéfica para aliviar o portfólio, outros temem que isso possa levar a uma diluição dos valores de cada marca. Um equilíbrio delicado a encontrar, onde a herança deve casar-se com a inovação.

Conclusão: um futuro incerto mas cheio de promessas

Stellantis encontra-se num cruzamento. As decisões tomadas nos próximos meses terão um impacto determinante no seu futuro e no de suas 14 marcas. Se o grupo conseguir navegar habilmente neste cenário complexo, poderá sair reforçado desta tempestade. Mas se a inércia se instalar, o peso do passado poderá tornar-se um handicap redibitório.

O autor deste artigo é Felipe Munoz, analista especializado na indústria automóvel e criador de conteúdos para Car Industry Analysis nas redes sociais.

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