As ambições chinesas em solo europeu
A BYD não quer apenas vender carros elétricos na Europa; quer ser vista como uma marca europeia, com fábricas e tudo. Mas nem sempre as portas se abrem como esperado. O gigante chinês tentou entrar no Grupo Renault, uma das maiores potências automóveis do continente, por duas vezes. A resposta? Um “não” rotundo, mesmo depois de conversas com o Presidente francês.
Imagine tentar entrar num clube exclusivo, apresentar o seu melhor plano de negócios e ser informado que a sua entrada não é bem-vinda. É mais ou menos esta a sensação que a BYD deve ter, após duas tentativas falhadas de se associar ao Grupo Renault. O objetivo era claro: partilhar tecnologia e usar a capacidade produtiva europeia para contornar as crescentes barreiras comerciais da União Europeia.
O plano B (ou seria C?) da BYD
A proposta era tentadora para ambos os lados, ou pelo menos era o que a BYD pensava. A ideia passava por um intercâmbio tecnológico: a BYD oferecia a sua expertise em veículos elétricos e híbridos plug-in, juntamente com o acesso às suas fábricas de baterias, um dos seus maiores trunfos. Em troca, a Renault cederia a sua vasta rede de fábricas na Europa, muitas delas com capacidade ociosa, um problema que assombra muitos construtores tradicionais.
A mais recente tentativa, no outono passado, chegou mesmo a envolver uma reunião entre Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, e o Presidente francês Emmanuel Macron. Um sinal claro da seriedade da proposta e da importância estratégica que a BYD atribuía a esta parceria. No entanto, tanto a BYD como o Grupo Renault optaram pelo silêncio quando questionados sobre o assunto, um silêncio que, dizem os mais avisados, vale mais do que mil palavras.
Um Estado com voz ativa
Não podemos esquecer que o Estado francês detém uma participação significativa no Grupo Renault, cerca de 15%, o que lhe confere 30% dos direitos de voto. Isto significa que qualquer decisão de grande vulto, como uma parceria estratégica com um gigante chinês, tem de passar pelo crivo do governo. E, aparentemente, o governo francês não viu com bons olhos esta aproximação, talvez por receios de uma perda de soberania industrial ou pelo impacto na mão-de-obra europeia.
A primeira tentativa de aliança estratégica ocorreu há cerca de dois anos, quando a BYD propôs tornar-se acionista do Grupo Renault. Na altura, a marca francesa já estava a negociar uma parceria com a Geely, outro colosso chinês. Com a mesa já ocupada e o apetite limitado, a BYD viu-se novamente forçada a procurar outros caminhos.
A corrida europeia da BYD
Estas tentativas de aproximação à Renault não são um capricho, mas sim parte de uma estratégia mais ambiciosa da BYD para se consolidar na Europa. A construção de fábricas próprias, como a primeira unidade que está a erguer, é um passo importante. Mas a marca procura também adquirir fábricas já existentes, uma forma mais rápida e talvez menos dispendiosa de garantir presença industrial no continente.
Fontes internas indicam que Espanha e França são os principais candidatos a receber este segundo investimento industrial. Alfredo Altavilla, consultor especial da BYD para o mercado europeu, já tinha admitido em entrevista que estas eram as localizações mais prováveis. A BYD quer estar perto dos seus clientes, mas também quer estar um passo à frente das políticas protecionistas da União Europeia.
O fantasma das tarifas
A União Europeia tem vindo a apertar o cerco aos veículos elétricos importados da China. Em 2024, foram impostas tarifas que podem chegar aos 45,3% sobre os carros elétricos produzidos na China. Esta medida visa proteger os fabricantes europeus da concorrência, muitas vezes considerada desleal devido a subsídios estatais chineses.
Para a BYD, e para outros construtores chineses, isto significa que ter produção local na Europa não é apenas uma questão de conveniência, mas uma necessidade estratégica. A proposta de um “Industrial Accelerator Act” por parte de Bruxelas promete endurecer ainda mais as regras para o investimento estrangeiro e para a produção automóvel no continente, tornando a entrada e expansão de marcas chinesas ainda mais complexa.
O que realmente está em jogo?
A verdade é que as fábricas europeias, muitas delas a operar abaixo da sua capacidade máxima, representam uma oportunidade de ouro para os construtores chineses. Podem assim contornar as tarifas, reduzir os custos de logística e, quem sabe, adaptar os seus produtos às especificações e gostos europeus de forma mais eficaz. Para a BYD, a Renault representava um atalho privilegiado para este objetivo.
A recusa da Renault, seja por pressão estatal ou por estratégia própria, deixa a BYD numa posição de ter de repensar a sua abordagem. Terá de continuar a investir em fábricas próprias, a negociar com outros parceiros ou a tentar convencer os franceses de que esta é uma parceria ganha-ganha. O tempo dirá se a gigante chinesa conseguirá, finalmente, bater à porta e entrar no círculo restrito da indústria automóvel europeia.
BYD: Um gigante com pés de barro na Europa?
- Ambição declarada: A BYD quer ser mais do que um vendedor de carros elétricos na Europa; almeja o estatuto de fabricante local.
- Duas tentativas falhadas: O grupo chinês tentou duas vezes associar-se ao Grupo Renault, sem sucesso.
- Plano tecnológico e produtivo: A proposta incluía partilha de tecnologia e acesso a baterias da BYD, em troca do uso das fábricas da Renault.
- Intervenção estatal: O Estado francês, acionista da Renault, terá tido um papel na recusa, por receios estratégicos.
- Pressão das tarifas: A UE impôs tarifas elevadas sobre os elétricos chineses, tornando a produção local uma necessidade.
- Novas regras à vista: Um “Industrial Accelerator Act” pode dificultar ainda mais o investimento estrangeiro na Europa.
- Futuro incerto: A BYD terá de encontrar novas formas de consolidar a sua presença industrial no continente.

