Num mundo automóvel em rápida evolução, a Ford e a Geely parecem prontas para escrever um novo capítulo da história industrial na Europa. Enquanto as grandes fábricas tradicionais enfrentam desafios de rentabilidade, o construtor americano e o gigante chinês contemplam uma associação que poderia transformar a paisagem da produção automóvel no Velho Continente.

Um Acordo em Curso
A Ford e a Geely discutem atualmente uma associação industrial centrada na Europa, com a possibilidade de utilizar a fábrica da Ford em Valência para produzir veículos destinados ao mercado europeu. Este acordo permitiria à Geely montar modelos elétricos localmente, evitando assim os direitos de aduana atualmente aplicados aos veículos importados da China. A fábrica, que produz atualmente o SUV compacto Kuga, está amplamente subutilizada, com um volume de produção anual que cai abaixo de 100 000 unidades, enquanto poderia acolher até 400 000.


A Ford e a Geely discutem um acordo industrial na Europa. Por enquanto, nada é oficial, mas a fábrica que produz atualmente Kugas em Valência está no centro das discussões. © Alex Krassovsky
Valência, o Coração das Trocas
As discussões entre a Ford e a Geely destacam a fábrica de Valência, na Espanha, como um ponto central. Com uma produção estagnada, esta fábrica poderia recuperar uma nova vida graças à chegada de modelos montados localmente. Para a Geely, esta estratégia apresenta uma dupla vantagem: escapar a direitos de aduana que podem atingir 35% sobre os carros elétricos importados e reforçar a sua presença no mercado europeu. Não é surpreendente que outros fabricantes chineses, como a Leapmotor e a BYD, adotem abordagens semelhantes ao estabelecerem locais de produção na Europa.

Uma Nova Era de Colaboração
Para além do simples “empréstimo de fábrica”, as discussões entre os dois gigantes incluem também um quadro para a troca tecnológica. A Ford e a Geely exploram vias de cooperação em áreas-chave como a condução automatizada e os veículos elétricos. Atualmente, os aspectos industriais parecem ser os mais avançados, mas a ideia de partilhar os custos de investigação e desenvolvimento (I&D) torna-se crucial num contexto onde os investimentos se tornaram muito pesados para serem absorvidos sozinhos.

A Ford já tomou iniciativas nesse sentido, nomeadamente ao produzir modelos elétricos em Colónia na plataforma MEB da Volkswagen. Este movimento demonstra uma vontade de se adaptar à rápida evolução do mercado automóvel.

Para a Geely, montar modelos em solo da UE teria uma vantagem imediata: escapar a direitos de aduana que podem atingir 35%. © Geely
Contexto Político e Económico
Oficialmente, nem a Ford nem a Geely fornecem detalhes sobre o avanço das negociações. No entanto, o contexto político desempenha um papel crucial nessas discussões. Desde o aumento dos direitos de aduana sobre os carros elétricos fabricados na China, os fabricantes chineses procuram “europeizar” a sua produção ao estabelecer fábricas locais ou ao formar parcerias de montagem. Para a Ford, um acordo com a Geely poderia ajudar a aumentar a taxa de utilização dos seus locais europeus enquanto amortiza os investimentos realizados.
No entanto, existe sempre um limite a esta cooperação. Qualquer extensão da associação aos Estados Unidos seria examinada de perto do ponto de vista político, devido à desconfiança em relação às empresas chinesas. As discussões entre a Ford e a BYD sobre o fornecimento de baterias para os seus híbridos são um exemplo perfeito.
Uma Estratégia a Longo Prazo
A Geely não entra num território desconhecido. Ao controlar marcas como a Volvo e a Lotus, e ao estar envolvida na Polestar, demonstra uma vontade clara de se diversificar enquanto mantém uma certa autonomia na sua produção. A direção do grupo também expressou o seu desejo de deixar de abrir novas fábricas e de privilegiar a utilização das capacidades existentes.
Para ambas as partes, este acordo poderia, portanto, ser uma oportunidade de acelerar o seu desenvolvimento respetivo enquanto abordam os desafios do mercado europeu. Isso reflete uma tendência crescente para a colaboração em vez da concorrência no setor automóvel.

A Ford e a Geely trocaram ideias sobre a condução automatizada e, mais amplamente, sobre elementos relacionados à eletricidade e à conectividade. © Geely
Conclusão: Um Futuro a Construir Juntos
Enquanto a indústria automóvel atravessa uma transformação sem precedentes, o aproximar-se entre a Ford e a Geely poderia representar um modelo a seguir para outros fabricantes. Ao combinar forças e recursos, estes dois gigantes poderiam não só enfrentar o desafio da transição energética, mas também redefinir as regras do jogo no mercado europeu. Agora, todos os olhares estão voltados para Valência, onde o futuro poderá ser escrito em letras de colaboração.

